Quando decidiu permanecer no campo após a morte do pai, o jovem apicultor Felipe Attuati não pensava apenas em dar continuidade a um negócio familiar; ele passou a representar um dos principais desafios do agronegócio brasileiro hoje, que é o de manter as novas gerações no meio rural. A história dele dialoga diretamente com o cenário apresentado pelo Sebrae RS durante a Expodireto, onde o futuro do trabalho no campo foi debatido com foco na retenção de talentos.
A partir de análises e iniciativas voltadas ao desenvolvimento regional, a instituição tem reforçado que a permanência dos jovens no campo depende de uma combinação de fatores, que vão desde o acesso à inovação até melhores condições estruturais para empreender. Nesse contexto, programas como Campo Inovador e Jovem Empreendedor no Campo, além de projetos de conexão e encadeamento produtivo, atuam diretamente no fortalecimento de cadeias como leite, grãos, apicultura e agroindústria.
Attuati, de Boa Vista do Buricá, é um exemplo desse novo perfil de produtor rural. Apicultor, operador de drones agrícolas e estudante de Engenharia de Software, ele assumiu a atividade iniciada pelo pai e hoje trabalha na estruturação de uma agroindústria de mel, ao mesmo tempo em que incorpora tecnologia ao negócio.
"A decisão de ficar não é fácil. Produzir está cada dia mais difícil, mas alguém vai precisar ocupar esse espaço que está ficando vazio com a saída das pessoas do campo", conta. Para ele, há também uma oportunidade estratégica nesse movimento: "Quando chegar a hora de preencher essa lacuna, quem já estiver consolidado consegue crescer mais rápido e fazer a diferença".
A experiência prática reforça um ponto central destacado por Armando Pettinelli, gerente da Regional Noroeste do Sebrae RS: a sucessão familiar precisa ser planejada e acompanhada pela maior participação dos jovens na gestão das propriedades. "A principal barreira à continuidade familiar dos negócios rurais está na falta de inclusão dos jovens nas decisões, no compartilhamento de responsabilidades e em uma remuneração adequada. Quando isso acontece, a adoção de novas tecnologias se torna mais natural", explica.
Segundo Pettinelli, desafios como acesso à informação, crédito facilitado, desburocratização e gestão integrada da propriedade seguem entre os principais entraves para a permanência dos jovens no campo. Ao mesmo tempo, quando há abertura para a participação ativa dos sucessores, a incorporação de novos processos e ferramentas tende a ser mais rápida e eficiente.
Esse movimento já é visível na trajetória do apicultor. "Fui buscar conhecimento, estou cursando Engenharia de Software e quero trazer isso para o campo. Quero ser a inovação dentro da apicultura", afirma. A atuação com drones agrícolas, de acordo com ele, também ajuda a atrair o interesse de outros jovens, ao apresentar novas possibilidades de atuação no setor.
A combinação entre tradição familiar, inovação e qualidade de vida segue como um diferencial importante. "O que pesou foi a oportunidade de empreender, a tradição e a qualidade de vida. O campo tem dificuldades, mas é uma vida mais simples, mais leve e que traz mais felicidade", destaca Attuati.
Para o Sebrae RS, histórias como a de Felipe evidenciam que o futuro do trabalho no campo passa, necessariamente, pela criação de um ambiente mais favorável ao jovem empreendedor rural, com acesso à tecnologia, crédito, capacitação e, principalmente, protagonismo dentro das propriedades.